O Primeiro de Maio e a imprensa gaúcha: legado e memória

Por Rhuan Targino Zaleski Trindade e Andrey Kevin Argenti da Silva, do núcleo Educativo & Pesquisa do MuseCom

O Museu da Comunicação Social Hipólito José da Costa (MuseCom) preserva um vasto acervo de imprensa relacionado à comunicação social do Rio Grande do Sul e do Brasil. Em suas estantes encontram-se conservados exemplares de uma ampla diversidade de periódicos, abrangendo múltiplas temáticas e distintos períodos históricos. Neste contexto, destacam-se os jornais de caráter trabalhista e operário, que se configuravam como importantes meios de comunicação utilizados pelos proletários para dialogar com outros setores da sociedade, bem como mobilizar-se em prol da ampliação dos direitos trabalhistas e da melhoria das condições de trabalho. Como por exemplo, as reportagens acerca das mobilizações para com o Primeiro de Maio.

No decorrer dos 140 anos da celebração da data do Primeiro de Maio – Dia Mundial do Trabalhador, um feriado nacional e internacional, dedicado à luta e conquistas trabalhistas -, é embricada/cerceada por uma longa trajetória calcada no entrelaçamento de variadas formas, conteúdos e disputas políticas-ideológicas para a construção dos sentidos desta data tão cara à classe trabalhadora. No campo da historiografia, evidencia-se que, a partir da concepção de memória, operam-se investimentos materiais e simbólicos decorrentes de iniciativas tanto singulares quanto de classe que, ainda que divergentes, contribuem para a construção – consciente e frequentemente em disputa – das configurações simbólicas de um marco comemorativo, a partir dos significados que lhe são conferidos e, por conseguinte, das modalidades de sua celebração.

Esses processos de construção simbólica encontram suas bases nas transformações históricas que deram origens às próprias lutas do mundo do trabalho. Ao longo do século XIX, diferentes formas de organização e mobilização dos trabalhadores emergiram em resposta às transformações trazidas pela industrialização desencadeadas pela Revolução Industrial. Entre essas experiências, destacaram-se o Ludismo – movimento proletário inglês caracterizado pela destruição do maquinário industrial, e o Cartismo, que articulou reivindicações por participação política e direitos sociais.

No mesmo período, também se desenvolveram diferentes correntes de pensamento voltadas à compreensão e à crítica das novas relações de trabalho, incluindo propostas associadas ao denominado socialismo utópico e ao socialismo científico, este último sistematizado por autores como Karl Marx e Friedrich Engels. Nesse sentido, a confluência de ideias e postulações teóricas culminam na consolidação da consciência de classe – percepção individual sobre si na posição social e econômica dentro da estrutura produtiva -, ou seja, no reconhecimento dos trabalhadores enquanto pertencentes ao proletariado reclamando melhores condições de trabalho, destaque para a redução da jornada de trabalho.

A gênese do Primeiro de Maio, tal como se configura em suas formas contemporâneas de celebração, encontra-se historicamente atrelada às mobilizações grevistas ocorridas nos Estados Unidos ao longo do século XIX. O movimento operário estadunidense já se encontrava, há décadas, inserido em um cenário de tensões contínuas com o patronato, no qual se destacava, entre suas principais pautas, a reivindicação pela redução da jornada de trabalho. Em 1886, entidades sindicais articularam a convocação de uma greve geral para o Primeiro de Maio, momento que, no contexto nacional estadunidense, estava associado à renovação de contratos de trabalho e de aluguéis, prática conhecida como Moving Day. A mobilização alcançou cerca de duzentos mil operários que, a partir do terceiro dia de paralisação, dirigiram-se à fábrica McCormick, em Chicago – à época um dos mais relevantes polos industriais dos Estados Unidos. Nesse contexto, a atuação das forças de segurança pública resultou em disparos contra os trabalhadores, ocasionando mortes, ferimentos e prisões.

Em relação a esses acontecimentos, lideranças sindicais – principalmente aquelas relacionadas a organizações de tendência anarquista – convocaram um comício na Praça Heymarket em resposta. À noite, a atuação das forças policiais reacendeu o conflito, resultando em um confronto com os trabalhadores que evoluiu para um episódio de grande violência. O conflito entre proletários e guardas denominou-se de Massacre de Chicago ou Massacre de Heymarket. Ademais, a repressão intensificou-se em junho do mesmo ano, quando lideranças sindicais vinculadas ao movimento grevista foram presas sem julgamento e sem a devida apresentação de provas, culminando em sua condenação à morte por enforcamento.

As vítimas do Massacre de Chicago consolidaram-se como símbolos de luta no âmbito do movimento operário internacional, passando a expressar as injustiças e conflitos que caracterizaram as relações entre trabalhadores e setores patronais no contexto da industrialização. No ano de 1889, em Paris, a Segunda Internacional ou Internacional Socialista, em seu congresso realizado em 14 de julho, deliberou pela instituição do Primeiro de Maio como Dia Internacional do Trabalho, associando-o à luta pela redução da jornada laboral para oito horas diárias. A data, aprovada por aclamação, inscrevia-se simultaneamente como expressão de luto pelos trabalhadores mortos em Chicago e como marco de mobilização em torno da ampliação das condições de trabalho e de vida, abrangendo o direito ao descanso e ao lazer.

Comemorações no Rio Grande do Sul

O dia Primeiro de Maio, como dia comemorativo dos trabalhadores no Rio Grande do Sul, tem seu prelúdio mencionado como o ano de 1892. Marçal (2004), em seu estudo sobre a imprensa operária do estado, aponta o jornalista italiano Francisco Colombo Leoni, editor do jornal anarquista de curta duração L’Avvenire (O Porvir), de Porto Alegre, como o idealizador da comemoração do dia na capital gaúcha naquele ano. Segundo o jornal porto-alegrense A Federação, do dia 30 de abril, anunciava em uma pequena nota no final de sua capa, que “as classes operárias reunir-se-ão amanhã, às 2h da tarde, na praça da Alfandega”, no que seria uma “grande marcha comemorativa ao dia, consagrado às expansões pacíficas do proletariado”. A edição seguinte, contudo, do dia 2 de maio, evidenciava o malogro do evento em outro pequeno texto.

Capa do jornal L’Avvenire, 14 de janeiro 1893. Disponível no Acervo do MuseCom

O rival político d’A Federação, o jornal A Reforma, dirigido por aliados de Gaspar Silveira Martins[1], dá atenção maior às ocorrências do dia primeiro. O artigo menciona, que por alguma razão desconhecida, a passeata teria ocorrido com apenas pouco mais de 40 pessoas, as quais teriam seguido o jornalista Colombo Leoni. Estes andaram pelas ruas do centro, finalizando a marcha no recreio Bellevue, com cantos dos trabalhadores alemães. Segundo Bilhão (2020), a Allgemeiner Arbeiter Verein (União Geral de Trabalhadores), fundada no mesmo ano de 1892, era a principal organização operária na cidade naquele período, evidenciando a presença alemã na organização dos trabalhadores no contexto final do século XIX em Porto Alegre. Cinco anos depois, em 1897, o jornal socialista A Gazetinha promove uma edição especial para o dia 1º de maio, com vários artigos comemorativos (incluindo textos para trabalhadores alemães e italianos), além de uma ampla programação ao longo do dia, demonstrando o crescimento da data como solenidade.

Fragmento do jornal A Gazetinha, 1 de maio de 1897, com a programação dos festejos em português e alemão

O breve evento relatado de 1892, apesar das dificuldades iniciais, deu início a sistemáticas comemorações ao longo dos anos que se seguiram, como na sequência, em 1897. Estas foram marcadas não apenas por atividades celebrativas, mas pela construção de movimentos de trabalhadores, sucessivas greves e demandas por direitos trabalhistas, amplamente estudados pela historiografia gaúcha (Petersen, 2001).

Os jornais dos trabalhadores

O MuseCom possui amplo acervo de pesquisa para a questão dos trabalhadores do Rio Grande do Sul, englobando diversos períodos da História Gaúcha e uma grande variedade de jornais com perspectivas múltiplas e potencialidades de análise. Um dos exemplos, são os próprios jornais anarquistas, como A Dor Humana, de Bagé, 1920, um “Orgam da União Geral dos Trabalhadores” do Rio Grande do Sul, que se colocava como “porta voz dos oprimidos”. Outro a ser observado é o próprio periódico italiano do final do século XIX L’Avvenire de Porto Alegre, de Leoni, igualmente de tendência anarquista. Mais tarde surge O Syndicalista, um “Orgam da Federação Operaria do Rio Grande do Sul. Adherida à Associação Internacional dos Trabalhadores – Berlim”, um jornal porto-alegrense de 1928, que esteve vinculado a várias greves no estado, assim como tendo o protagonismo do anarquista alemão Frederico Kniestadt. Somam-se a esses, vários outros jornais que se enquadravam nessa tendência de pensamento anarquista e do anarcossindicalismo.

Capa do jornal O Syndicalista, de maio de 1928. Disponível no Acervo do MuseCom

Outro jornal presente no acervo do MuseCom é o supramencionado A Gazetinha, fundado em 1891 em Porto Alegre (presente entre os anos de 1897-1900 no museu) de tendência socialista, ligado ao jornalista e ativista Francisco Xavier da Costa. O jornal contava com seções em alemão e italiano e o órgão estava presente no 1º Congresso Operário Rio-Grandense de 1898 (Marçal, 2004, p. 90).

Nos anos 1930, há o jornal de Porto Alegre O Trabalho (1935-1938), vinculado aos Círculos Operários do Rio Grande do Sul, órgão ligado às associações católicas de tendência maiormente vinculada à encíclica Rerum Novarum, do papa Leão XIII de 1891[2]. A instituição e o jornal possuíam forte vínculo com a presidência de Getúlio Vargas e sua política trabalhista.

As temáticas ligadas aos mundos do trabalho também podem ser observados nos jornais de grande circulação do final do XIX início do século XX, como o castilhista A Federação (1884-1937), o seu opositor federalista A Reforma (1869-1912), além do Correio do Povo (1895-). Estes possuem espaços destinados aos movimentos como as greves de 1906 e 1917, entre outras questões que podem ser levantadas, como as próprias comemorações do Primeiro de Maio.

O MuseCom possui, ainda, em seu acervo, uma série de jornais ligados a entidades classistas e grupos específicos de ofícios, jornais partidários vinculados aos trabalhadores de décadas mais recentes e boletins de entidades sindicais, que vão dos anos 1950 ao início dos anos 2000. Com isso, há espaço para uma ampla variabilidade de olhares de diversas áreas do conhecimento, como a História e a Comunicação.


Referências

Bilhão, Isabel. Lugares de memória dos trabalhadores #31: Praça da Conceição, Porto Alegre (RS). Laboratório de Estudos da História dos Mundos do Trabalho, 30 abr. 2020. Disponível em: https://lehmt.org/lugares-de-memoria-dos-trabalhadores-31-praca-da-conceicao-porto-alegre-rs-isabel-bilhao/. Acesso em: 23 abr. 2026.

Marçal, João Batista. A imprensa operária no Rio Grande do Sul (1873–1974). Porto Alegre: s.n., 2004.

Petersen, Silvia Regina Ferraz. “Que a União operária Seja Nossa pátria!” História das Lutas dos operários gaúchos para construir suas organizações. Porto Alegre; Editora Universidade; 2001.

Santana, Marco Aurélio; Fraga, Alexandre Barbosa. Primeiro de Maio: trajetória, dimensões e sentidos. Laboreal, v. 15, n. 1, 2019. Disponível em: http://journals.openedition.org/laboreal/1597. Acesso em: 27 abr. 2026.


[1] Político gaúcho (1835-1901) de grande influência durante o Império e o início do período republicano. Foi o líder da oposição ao governo Júlio de Castilhos no Rio Grande do Sul durante a Revolução Federalista (1893-1895).

[2] A encíclica marca o início do que é comumente denominado como Doutrina Social da Igreja (DSI), cujos paradigmas buscavam um caminho intermediário entre o capitalismo liberal e o socialismo.