Por Rhuan Targino Zaleski Trindade e Andrey Kevin Argenti da Silva, do núcleo Educativo & Pesquisa do MuseCom
O jornal A Reforma foi fundado em Porto Alegre em 16 de junho de 1869, durante o regime imperial brasileiro. Era um órgão oficial do denominado Partido Liberal e de um dos seus líderes, Gaspar Silveira Martins. O jornal se subintitulava político, noticioso e comercial, com 4 páginas de conteúdo tendo, para além do caráter partidário, aspectos de informações cotidianas e propaganda do Rio Grande do Sul. Em formato standard (tamanho inicial de 52cm x 36cm) era vendido como assinatura – posteriormente avulso, possuindo valores que variavam ao longo do tempo e com demanda para além da capital gaúcha. Atravessando o fim da monarquia, a emergência da República em 1889, o jornal sofreu mudanças, passando a ser órgão do Partido Federalista do Rio Grande do Sul e uma alternativa ao periódico A Federação, uma folha republicana sob égide de Júlio de Castilhos e seu correligionários do Partido Republicano Rio-Grandense que dominava a política estadual ao longo do período.
No contexto da imprensa brasileira do século XIX, A Reforma destacou-se como um importante representante do jornalismo político-partidário no Rio Grande do Sul, uma vez que os periódicos da época possuíam alinhamentos ideológicos explícitos e atuavam como porta-vozes de partidos e correntes políticas. Segundo Borba (2013), o Partido Liberal passava por um processo de reorganização interna em 1869. Nesse mesmo ano, o partido lançou seu Manifesto Liberal, no qual defendia propostas reformistas para a província.
Além do grande líder Gaspar Silveira Martins, outra figura de destaque foi o jornalista alemão Carlos von Koseritz, diretor de redação de A Reforma e um dos principais articuladores do liberalismo na província. Em seus textos, realizava duras críticas a Júlio de Castilhos, além de defender posicionamentos anticlericais e a manutenção de uma monarquia constitucional. Em 1870, afastou-se do periódico em decorrência da Guerra Franco-Prussiana, rompendo politicamente com Silveira Martins: enquanto este defendia a França, Koseritz posicionava-se favoravelmente à futura Alemanha.
Entre os nomes ligados ao grupo político de A Reforma, destacou-se Manuel Luís Osório, o General Osório, uma das principais lideranças militares e liberais do Império. Próximo de Silveira Martins, defendia a monarquia constitucional e exercia forte influência na política sul-rio-grandense. Sua projeção pública ampliou-se especialmente após sua participação na Guerra do Paraguai, conflito que consolidou seu prestígio em âmbito nacional.
Além da atuação política e jornalística, os integrantes de A Reforma também participavam de espaços culturais e intelectuais da província, como o Partenon Literário e o Centro Abolicionista de Porto Alegre. A presença nesses círculos permitia a ampliação de suas redes de sociabilidade e influência liberal, articulando a atuação política do grupo para além das páginas do periódico (Borba, 2013).
Com o golpe republicano em 1889, o Partido Liberal é descontinuado e, em seu lugar, surge o partido regional de Gaspar Silveira Martins, o Partido Federalista do Rio Grande do Sul, em 1892. O jornal logo se vincula com aquele, tornando-se seu órgão oficial. A disputa com o líder do governo estadual, o Partido Republicano Rio-Grandense, de Júlio de Castilhos, se converte na guerra civil de 1893-1895, conhecida como Revolução Federalista. O fato é que “Na República Velha, [A Reforma] desempenhou significativo papel na articulação no Partido Federalista, que sucedeu ao Liberal. Nesse período chegou a tirar edições de 20 mil exemplares, distribuídas gratuitamente por todo o Estado” (Rüdiger, 2003, p. 42). Com isso, se autodenominava a maior tiragem do estado durante o início dos anos 1890. O seu escritório e tipografia mudaram algumas vezes de local com o passar dos anos, além de possuir vários diretores, editores e redatores, bem como número amplo de colaboradores influentes na política e no jornalismo gaúcho do final do século XIX e início do XX.
Em 15 de junho de 1912, após quase 43 anos de sua fundação, o jornal A Reforma, através de seu último redator Francisco Maciel Junior, encerrava suas atividades, nos dizeres da capa, “provisoriamente”, mas nunca mais a folha seria reescrita ou reeditada. O jornal teve interrupções anteriores, sofreu com a censura castilhista durante o cerne do conflito de 1893-1895, mas manteve a publicação até 1912, quando finalmente se encerrou, já no ocaso da oposição federalista desde o conflito do final do século XIX. Ainda em seu último número, mantém o tom crítico à situação política do estado e à herança de Castilhos e do Partido Republicano Rio-Grandense.
Referências:
Ramos, Gislaine Borba. A campanha abolicionista em Porto Alegre: considerações a partir do jornal A Reforma (1870-1888). In: VI Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional, 6., 2013, Florianópolis. Anais […] Florianópolis: UFSC, 2013. Disponível em: LabHSTC/UFSC. Acesso em: 12 maio 2026.
Rüdiger, Francisco. Tendências do jornalismo: (Rio Grande do Sul). 3. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003.