Caminho das águas: Dois anos recuperando os acervos de Imprensa do MuseCom

Esta é a primeira de duas reportagens produzidas pela jornalista Ananda Zambi, do Núcleo de Comunicação do MuseCom, em alusão à Semana Estadual de Prevenção aos Desastres Socioambientais e ao Dia Estadual de Enfrentamento à Emergência Climática

Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu o maior desastre natural de sua história. As enchentes, que atingiram 478 municípios do estado, afetou 2,4 milhões de gaúchos e deixou cidades completamente destruídas. Na capital Porto Alegre, o lago Guaíba atingiu o nível máximo histórico de 5,37m, alcançando diversos prédios do Centro Histórico da cidade, incluindo diversos museus, entre eles o Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa (MuseCom). Com a água alcançando seus pavimentos inferiores, atingindo o subsolo e o hall de entrada da instituição, seu acervo foi afetado significativamente devido à falta de energia e as variações súbitas de temperatura e umidade, com as coleções de Cinema e Imprensa sendo as mais atingidas. Nesta reportagem, abordaremos a situação do trabalho desenvolvido junto aos acervos de Imprensa. 

Em meio ao processo de recuperação dos itens danificados, foram restaurados 12 títulos de jornais do século XIX – acervos raros e de grande importância na imprensa escrita do Rio Grande do Sul –, e foi adquirido um equipamento de digitalização que já viabilizou o escaneamento de 637 títulos e 4.449 exemplares.

“A preservação em um museu com centenas de milhares de acervos e com diversas materialidades e suportes de informação é um desafio constante, demandando diversos investimentos e ações no cotidiano. Com a catástrofe climática em 2024, vivenciamos um cenário crítico no que toca à complexidade desta tarefa. Por maior que tenham sido os esforços da nossa equipe técnica em ações preventivas para que o acervo não fosse acometido pelas águas, o prédio sede da instituição foi inundado em seus andares inferiores e os acervos sofreram indiretamente com as circunstâncias. Nosso último trimestre de 2024 foi de montagem de projetos e planos de ação para recuperar esses acervos afetados. Conjuntos que, pela sua composição e tempo de existência, já sofriam com eventuais patologias e passaram a precisar, a partir das enchentes, de restauração”, comenta o museólogo e diretor do museu, Welington Silva.

Os procedimentos de conservação e restauração desses títulos já eram objeto de trabalho da instituição antes da tragédia, mas as enchentes agravaram a situação de conservação dos exemplares e evidenciaram ainda mais a urgência desse projeto. Com o MuseCom fechado ao público dos dias 1º de maio a 4 de agosto de 2024, o período foi marcado pelo início de uma força-tarefa para recuperação dos acervos realizado pelos servidores da instituição, envolvendo três etapas que estão em prática até os dias de hoje: Verificação do impacto do evento climático no estado de conservação dos acervos; aplicação de medidas de conservação preventiva, como higienização mecânica e reacondicionamento; e restauração e migração da informação para os exemplares de perfil prioritário preservados na instituição, observando sua preservação e difusão.

Foto: Cesar Caramês

A arquivista Laura Isabel Marcáccio Arce, integrante do Núcleo de Acervos da instituição e que participou de todas as fases deste ciclo desde 2024, explica quais foram os critérios de seleção destes acervos:

“As prioridades foram os jornais de Porto Alegre do século XIX, seguido dos jornais do Rio Grande do Sul da mesma época. Os títulos que estavam muito deteriorados ou com o suporte fragilizado também foram listados para intervenção de restauro.”

Laura também comenta quais foram os procedimentos de conservação preventiva realizados: “Os acervos foram abertos para desumidificação, foi efetuada a higienização mecânica do material e, naqueles casos onde houve necessidade, foi feito o reacondicionamento dos exemplares com papel de palha de gramatura 300g/m² e reserva alcalina.” 

O estado de calamidade em que o Rio Grande do Sul se encontrava não foi o único obstáculo no caminho. Os equipamentos utilizados naquele momento eram insuficientes, especialmente no caso dos Scanners, pois aqueles que já existiam no MuseCom não comportavam o formato A2, tamanho de muitos jornais que se encontravam no grupo prioritário a ser tratado. Além disso, foi necessário buscar mão de obra especializada, pois o estado de conservação de alguns exemplares também impossibilitava a digitalização em função da fragilidade do suporte. Foi necessário investimento do estado para atender a esses elementos.

Foto: Cesar Caramês

Assim, ainda em 2024, foi efetuada a compra do Scanner Zeutschel modelo OS C2 Advanced, equipamento de ponta que viabilizou o avanço significativo do processo da migração de suporte da coleção de impressos da instituição. Dois anos depois, em 2026, a digitalização já alcançou 80% dos títulos do Rio Grande do Sul do século XIX. Além do escaneamento do suporte físico para o digital, a difusão destes acervos na web e o aprimoramento dos protocolos de preservação digital também ocorreram: 

“Além da digitalização, houve a revisão das imagens, buscando um padrão de qualidade técnica; a elaboração das derivadas de acesso, viabilizando a manutenção do material em ambiente de acesso virtual; e a produção dos pacotes de preservação (“bags”) que são depositados no servidor da instituição.”

Foto: Cesar Caramês

A etapa de restauração dos jornais raros foi realizada por Vera Zugno, especialista em restaurações em papel. Vera explica como foi o processo realizado nos itens de Imprensa: “Primeiro, os jornais passaram por uma análise de suas patologias para iniciar os procedimentos de restauro. Após o diagnóstico, foram feitas: limpeza com pincel macio; controle do pH; conserto dos rasgos com papel japonês e cola CMC (carboximetilcelulose); enxertos de partes faltantes; obturações; consolidação dos fragmentos e colagens; secagem, alisamento e acabamentos.”

Foram restaurados os seguintes títulos: “O Mercantil” (1852), “Álbum do Domingo” (1878), “A Reforma” (1878 -1883), “O Thabor” (1881-1882), “Congresso Rio-Grandense” (1891), “Gazeta Americana” (1892), “Gazeta Serrana” (1893), “O Exemplo” (1893), “Estrella do Sul” (1893), “O Intransigente” (1896), “A Gazetinha” (1897) e “O Pharol” (1897). 

A ação foi importante não só para aumentar a longevidade dos objetos, mas também para facilitar o acesso às informações que eles contêm: “Os títulos restaurados são muito relevantes, pois fazem parte da história da imprensa escrita do Rio Grande do Sul. Além disso, são títulos raros, com alguns exemplares que só se encontram preservados aqui no MuseCom”, comenta a arquivista. 

Passados estes dois anos, muitas ações e rotinas ainda seguem sendo desenvolvidas de forma orgânica na instituição, visando garantir que, em caso de outros eventos climáticos extremos, a instituição, seus acervos e a informação que existe acumulada no Museu de Comunicação possa estar em uma melhor condição, estando preservada e acessível para toda a sociedade.