Por Rhuan Targino Zaleski Trindade e Andrey Kevin Argenti da Silva, do núcleo Educativo & Pesquisa do MuseCom
O fenômeno da chamada Copa do Mundo, o maior torneio de seleções de futebol do planeta, está prestes a completar um século. A estreia do campeonato ocorre no Uruguai em 1930 e, desde então, com exceção da interrupção durante a Segunda Guerra Mundial (que suprimiu as edições de 1942 e 1946) acontece a cada quatro anos em diferentes sedes.
Em 2026, a Copa do Mundo será realizada nos Estados Unidos, México e Canadá, marcando a primeira vez que três países sediam conjuntamente o torneio. A competição ocorrerá entre 11 de junho e 19 de julho, reunindo seleções e torcedores de diferentes partes do mundo. Para celebrar o início daquele que se tornou um dos maiores fenômenos culturais do planeta, relembramos dois jogos que receberam destaque nas páginas do Correio do Povo, em edições realizadas antes e após a Segunda Guerra Mundial.
O primeiro destaque é para o famoso (mas talvez pouco rememorado) jogo Brasil x Polônia, em 5 de junho de 1938, na primeira copa da França. Esta foi a partida da Seleção Brasileira com mais gols na história das Copas do Mundo, um rotundo 6×5, com destaque para a figura do lendário Leônidas da Silva e atuação destacada do polonês Ernest Wilimowski.
A outra partida que se destaca, é a primeira realizada em Porto Alegre, em copas do mundo, Iugoslávia 4×1 México, no estádio colorado dos Eucaliptos, em 28 de junho de 1950. A fatídica copa do Maracanazo, que estreou o país do futebol como sede oficial, no pós-Segunda Guerra.

O jogo contra os poloneses era a estreia do Brasil no mundial de 1938. Segundo o Correio do Povo, em sua capa do dia da partida, “polariza as atenções de todo o paiz o match”, que aconteceria em Estrasburgo, às 13h20 no horário do Brasil. A “turma brasileira” era “considerada favorita” e o otimismo tomava conta dos escritos do jornal. O ufanismo era grande, segundo o Correio, “Jamais uma representação sul-americana despertou maior interesse na Europa como acontece com a que o Brasil enviou agora”. Eram destacados nos jornais estrangeiros “o valor do ‘scratch’ brasileiro, a rapidez, a virtuosidade e a segurança […]”. O destaque da seleção era Leônidas, o “Diamante Negro”, que o técnico polonês havia preparado marcação especial de um dos seus melhores jogadores. Conforme as páginas jornalísticas demonstravam, a Copa era um espaço de promoção da nacionalidade brasileira, de capacidade de exposição do país para o mundo e de sucesso esportivo.
A seleção foi escalada com Batatais; Domingos e Machado; Zezé, Martim e Affonsinho; Lopes, Romeu, Leonidas, Peracio e Hercules. Já os poloneses iam com Edward Madejski; Władysław Szczepaniak e Antoni Gałecki; Wilhelm Góra, Erwin Nyc e Ewald Dytko; Ryszard Piec, Leonard Piątek, Fryderyk Scherfke, Ernest Wilimowski e Gerard Wodarz. Wilimowski era elogiado pelo jornal gaúcho, sendo apelidado de “um verdadeiro ‘Leonidas louro’”.
O resultado foi uma grande vitória brasileira pelo placar de 6×5. O jornal no dia seguinte comemorou dando imenso destaque à partida, na sua seção esportiva. O Brasil contou com a torcida especial do presidente Getúlio Vargas e sua esposa, que do Rio de Janeiro acompanharam o jogo via rádio. Essa foi a partida com a maior quantidade de gols da seleção brasileira em mundiais, vencendo dois 7×1, um da vitória contra a Suécia em 1950 no Maracanã e a fatídica derrota contra a Alemanha no Mineirão em 2014.
O jogo, para um público de 13.452 pessoas, foi marcado pela “lama” do mal tempo que fazia na cidade francesa. O comentarista oficial de Paris afirmara: “’a jornada caracterizou-se pela acção technica e espectacular da vanguarda brasileira e pela destreza e coragem dos polonezes’”, no final, ainda afirmava que o Brasil poderia ter vencido por mais. Era a consagração do otimismo inicial brasileiro, que se imaginavam chegando na final do torneio, liderados nas figuras de Leonidas e Domingos. O Brasil empataria com os tchecos na sequência e os venceria em uma partida de desempate. Na semifinal, entretanto, seria derrotado pela futura bicampeã Itália, encerrando sua participação no torneio. A conquista italiana ocorreu em um contexto marcado pela ascensão dos regimes autoritários na Europa. Governada por Benito Mussolini desde a década de 1920, a Itália utilizava os sucessos esportivos como instrumento de projeção internacional e propaganda do regime fascista. Realizada em meio ao agravamento das tensões políticas europeias, a Copa de 1938 seria a última antes da interrupção provocada pela Segunda Guerra Mundial, que levou ao cancelamento das edições previstas para 1942 e 1946.

Em 1950, a Copa do Mundo voltou a ser realizada após doze anos de interrupção provocados pela Segunda Guerra Mundial. Sediado pela primeira vez no Brasil, o torneio ocorreu entre 24 de junho e 16 de julho e teve partidas disputadas em Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Entre as cidades-sede, Porto Alegre recebeu delegações estrangeiras e jogos da competição no Estádio dos Eucaliptos, pertencente ao SC Internacional. Neste estádio, destacou-se a seleção da Iugoslávia, cuja passagem pela capital gaúcha foi acompanhada de perto pela imprensa local. As páginas do Correio do Povo registraram a chegada da delegação, os preparativos para as partidas e as percepções construídas em torno da equipe durante sua estadia na cidade.
O retorno da Copa do Mundo possuía um significado especial e ao sediar a competição, o Brasil buscava projetar-se internacionalmente como um país moderno e capaz de organizar um evento de alcance global. Para Porto Alegre, a recepção de delegações estrangeiras representava a inserção da capital gaúcha em um acontecimento que mobilizava atenções em diferentes partes do mundo.
Nas páginas do Correio do Povo, a presença da seleção iugoslava recebeu destaque especial. Fotografias dos jogadores, informações sobre treinamentos, entrevistas e comentários acerca das expectativas para as partidas ocuparam espaço significativo na cobertura esportiva. A chegada da delegação era tratada como um acontecimento de relevância internacional, aproximando os leitores gaúchos de uma realidade distante e pouco conhecida pela maioria da população brasileira.
Os holofotes direcionados à seleção iugoslava também revelam a posição singular ocupada pelo país balcânico naquele contexto histórico. Ao término da Segunda Guerra Mundial, a Iugoslávia foi reorganizada sob a liderança de Josip Broz Tito. Reconhecido por sua atuação à frente dos partisanos durante a luta contra a ocupação nazi-fascista, Tito assumiu a condução política do país e promoveu a constituição da República Popular Federativa da Iugoslávia. Diferentemente de outros países do Leste Europeu, entretanto, o governo iugoslavo rompeu relações com a União Soviética em 1948, adotando uma postura mais independente em relação a Moscou. Em plena Guerra Fria, a presença de uma delegação iugoslava no Brasil possuía significados que ultrapassavam o campo esportivo.
O contexto internacional também encontrou espaço nas páginas do periódico. Na edição de 28 de junho de 1950, enquanto a cobertura da Copa do Mundo ocupava a seção esportiva, a manchete principal destacava a intervenção dos Estados Unidos na Guerra da Coreia. Iniciado poucos dias antes do torneio, o conflito rapidamente tornou-se um dos principais episódios da Guerra Fria, colocando em lados opostos países alinhados aos Estados Unidos e ao bloco socialista. A coexistência dessas notícias em uma mesma edição demonstra como a imprensa transitava entre diferentes escalas de acontecimentos, conectando os leitores locais tanto aos eventos esportivos quanto às transformações políticas que marcavam o cenário internacional.
Foi nesta conjuntura que ocorreu a principal partida disputada pela seleção iugoslava em Porto Alegre. Em 28 de junho de 1950, no Estádio dos Eucaliptos, a equipe enfrentou o México diante de milhares de espectadores e conquistou uma vitória por 4 a 1. O resultado consolidou a seleção iugoslava entre as principais forças de seu grupo e recebeu ampla cobertura do Correio do Povo. Na edição do dia seguinte, o periódico destacou o confronto sob a manchete “Brilhante e Merecida Vitória da Iugoslávia”, dedicando grande espaço à partida. Além da descrição dos principais lances, o jornal publicou fotografias do jogo, análises técnicas e comentários sobre a atuação dos atletas, evidenciando a importância atribuída ao torneio pela imprensa gaúcha. A cobertura não se limitava ao registro do resultado esportivo; ao acompanhar a passagem da delegação iugoslava pela capital gaúcha, o periódico aproximava seus leitores de um evento de alcance internacional e transformava Porto Alegre, ainda que temporariamente, em um dos centros das atenções do futebol mundial.
Atualmente, essas páginas constituem importantes fontes históricas para compreender a realização da Copa do Mundo de 1950 no Rio Grande do Sul. Ao registrar a passagem da seleção iugoslava por Porto Alegre, o Correio do Povo não apenas documentou os acontecimentos esportivos do período, mas também preservou vestígios de um contexto marcado pelas transformações do pós-Segunda Guerra Mundial e pelas tensões da Guerra Fria. Dessa forma, a cobertura da imprensa permite compreender como esporte, política internacional e sociedade encontravam-se cotidianamente nas páginas dos jornais.

O MuseCom conta com exemplares de jornais que acompanharam todas as Copas do Mundo, desde 1930 até 2014. Além disso, possui edições e compilados especiais das copas de 1974 e 1978, revistas temáticas e uma série de possibilidades de pesquisa relacionadas ao futebol.
